ESG Brasil – Sustentabilidade Corporativa
ECONOMIA & SUSTENTABILIDADE

Além do PIB: por que progresso econômico exige bem-estar e sustentabilidade

O crescimento continua sendo relevante, mas deixa de ser suficiente quando não traduz qualidade de vida, resiliência social e preservação do capital natural.

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27 DE AGOSTO DE 2026 • ESG BRASIL

A discussão sobre como medir o progresso econômico ganhou novo fôlego com as reflexões da pesquisadora Gaya Herrington, professora adjunta em Harvard e conhecida por atualizar empiricamente o estudo The Limits to Growth. A questão central é simples, mas profunda: uma economia pode produzir mais e, ainda assim, entregar menos bem-estar, mais vulnerabilidade social e maior pressão ambiental.

Esse debate toca diretamente a agenda ESG. Se a sustentabilidade corporativa pretende conectar desempenho econômico, impacto socioambiental e governança, então o crescimento precisa ser analisado não apenas pela quantidade de riqueza produzida, mas também pela qualidade, distribuição e permanência desse valor ao longo do tempo.

O PIB mede atividade econômica — não toda a ideia de progresso

O Produto Interno Bruto é um indicador fundamental para acompanhar produção, renda e ciclos econômicos. O problema surge quando ele passa a ser tratado como sinônimo de desenvolvimento. O PIB não informa, sozinho, se a população está mais saudável, se a educação melhorou, se os recursos naturais estão sendo degradados, se a desigualdade aumentou ou se a capacidade de uma sociedade enfrentar crises se tornou maior.

Uma economia pode crescer enquanto aumenta custos futuros: perda de biodiversidade, poluição, deterioração de recursos hídricos, pressão climática, adoecimento, exclusão social ou fragilidade institucional. Esses efeitos podem aparecer pouco ou tardiamente nas métricas tradicionais, embora já representem riscos econômicos concretos.

Por isso, indicadores de bem-estar, saúde, educação, qualidade ambiental, produtividade de recursos, segurança, equidade e resiliência precisam complementar a leitura do desempenho econômico.

O alerta de The Limits to Growth

Publicado em 1972 pelo Clube de Roma, The Limits to Growth utilizou o modelo World3 para analisar as interações entre população, produção industrial, alimentos, recursos naturais e poluição. O objetivo não era prever uma data exata para o “fim do mundo”, mas examinar trajetórias possíveis em um sistema no qual crescimento material e recursos físicos estão interligados.

Décadas depois, Herrington comparou dados observados com diferentes cenários do modelo. Seu estudo, publicado no Journal of Industrial Ecology, encontrou forte proximidade entre os dados empíricos e cenários nos quais a continuidade do padrão de crescimento leva à estagnação e posterior declínio de indicadores de bem-estar, produção e alimentos. A própria autora ressalta que isso não torna o colapso inevitável: escolhas econômicas, tecnológicas e institucionais ainda alteram trajetórias.

A contribuição mais relevante dessa análise é menos fatalista do que parece. Ela desloca a pergunta de “quanto podemos crescer?” para “que tipo de prosperidade queremos sustentar?”.

ESG é, em essência, uma discussão sobre qualidade do valor

A agenda ESG ganhou força justamente porque empresas, investidores e governos passaram a reconhecer que desempenho financeiro não existe isolado dos sistemas ambientais, sociais e institucionais que o sustentam.

Uma empresa pode elevar receita e margem no curto prazo enquanto consome recursos de forma ineficiente, acumula riscos regulatórios, enfraquece relações de trabalho, perde legitimidade perante stakeholders ou depende de uma cadeia vulnerável a eventos climáticos. O resultado contábil pode ser positivo hoje, mas a capacidade de geração de valor futuro pode estar sendo reduzida.

É nesse ponto que sustentabilidade deixa de ser comunicação e passa a ser gestão. Bons sistemas ESG devem conectar temas materiais a riscos, oportunidades, metas, indicadores e decisões de capital.

O que muda na gestão das organizações

Uma visão de progresso além do PIB também tem um equivalente empresarial: desempenho além do lucro isolado. Isso não significa abandonar métricas financeiras. Significa ampliar o painel de gestão para compreender as condições que sustentam resultados no longo prazo.

Conselhos e lideranças podem incorporar indicadores relacionados a emissões, eficiência energética e hídrica, circularidade, segurança, capital humano, diversidade, integridade, riscos socioambientais, qualidade da governança e impactos relevantes sobre comunidades e ecossistemas. O ponto não é medir tudo, mas medir o que é material para o negócio e para seus stakeholders.

Essa lógica também reduz um dos principais riscos da agenda ESG: transformar sustentabilidade em uma coleção de iniciativas desconectadas da estratégia. Quando os indicadores socioambientais e de governança entram no processo decisório, ESG passa a influenciar investimentos, operações, inovação, riscos e competitividade.

Brasil: oportunidade econômica vinculada ao capital natural

O Brasil ocupa posição singular nesse debate. A presença relevante de fontes renováveis em sua matriz energética e elétrica, a biodiversidade, a disponibilidade de recursos hídricos e o potencial de expansão de soluções de baixo carbono criam vantagens competitivas importantes.

Mas vantagem natural não se converte automaticamente em desenvolvimento sustentável. O valor econômico desses ativos depende de governança, planejamento, inovação, conservação e capacidade de transformar recursos naturais em produtividade, conhecimento e oportunidades sem destruir a base que os torna estratégicos.

Para empresas brasileiras, isso abre espaço para cadeias produtivas de baixo carbono, bioeconomia, energia renovável, economia circular, agricultura mais eficiente, finanças sustentáveis e soluções baseadas na natureza. A oportunidade, porém, exige métricas robustas e disciplina de gestão para separar compromisso real de mera narrativa.

Ir além do PIB não significa ser contra o crescimento

Esse é um ponto decisivo. Questionar o PIB como medida exclusiva de progresso não significa defender recessão, baixa produtividade ou abandono do desenvolvimento econômico. Significa reconhecer que crescimento é meio, e não finalidade absoluta.

Uma economia saudável precisa produzir riqueza, inovação, empregos e capacidade fiscal. Mas precisa fazê-lo preservando os sistemas humanos e naturais dos quais essa própria prosperidade depende. Da mesma forma, uma organização sustentável precisa gerar lucro, mas também proteger sua licença social para operar, sua reputação, seus recursos estratégicos e sua capacidade de adaptação.

Da quantidade de crescimento à qualidade da prosperidade

A provocação de Gaya Herrington ajuda a reposicionar a discussão econômica e empresarial. O desafio não é escolher entre economia e sustentabilidade. É construir modelos nos quais a economia consiga operar dentro de limites ambientais e, ao mesmo tempo, elevar o bem-estar humano.

Para a agenda ESG, essa mudança é fundamental. O verdadeiro avanço ocorre quando organizações deixam de tratar sustentabilidade como uma camada adicional e passam a incorporá-la à definição de desempenho, risco e valor.

Em síntese: crescer continua importando. Mas o progresso só se torna sustentável quando o crescimento melhora a vida, fortalece instituições e preserva as condições que permitem prosperar no futuro.

Referências e leitura complementar